Impérios em Rota de Colisão | História III

“Há muito tempo, pesquisadores se esforçam para explicar os motivos que levaram à eclosão da Primeira Guerra Mundial. Ao longo dos últimos 100 anos, eles recorreram às mais variadas explicações, desde as que enfatizam as questões diplomáticas até as que se concentram nos aspectos propriamente militares.

Nenhuma delas, no entanto, conseguiu oferecer uma interpretação global do fenômeno que articulasse crise econômica, expansão colonial, exportação de capitais, auge do nacionalismo expansivo e do racismo, disputas geopolíticas e conflito global.

As raízes da Primeira Guerra Mundial se encontram na segunda metade do século XIX. Depois de viver um período de forte crescimento econômico e abertura comercial ao longo das décadas de 1850 e 1860, as economias europeias enfrentaram um período de relativa depressão nos negócios na década de 1870.

Nesses anos de crise, o protecionismo econômico ganhou força. Com exceção da Grã-Bretanha, os demais países levantaram barreiras à importação para fortalecer a produção nacional. Ao mesmo tempo, desenvolveu-se um novo surto de conquista colonial, que agora tinha como alvos a Ásia e a África.

Esses dois fenômenos estavam relacionados, como disse o filósofo alemão Friedrich Engels no final do século XIX: ‘A colonização é hoje uma efetiva filial da Bolsa, no interesse da qual as potências europeias partilharam a África, entregue diretamente como botim às suas companhias’. […]

A principal consequência do imperialismo foi acirrar as disputas entre as potências europeias. Ganhou força a ideia de que cada país devia transformar-se em uma potência mundial, cujo prestígio dependia do grau de influência que podia exercer no mundo. Desde 1870, quando Itália e Alemanha concluíram seus processos de unificação nacional, a concorrência internacional e as relações entre os países se tornaram mais complexas.

Surgiram grandes blocos de poder. Os Estados, levados a uma concorrência política crescente com os vizinhos, estabeleceram alianças para evitar o isolamento. A primeira foi a que uniu a Alemanha e o Império Austro-Húngaro em 1879. Três anos depois, ela seria expandida com a entrada da Itália, dando origem à Tríplice Aliança em 1882. A França, isolada, buscou seus próprios aliados: primeiro a Rússia, com a qual firmou uma aliança em 1894, e em seguida a GrãBretanha, com quem se associou em 1904. Finalmente, o acordo anglo-russo de 1907 deu origem à ‘Entente Cordiale’, também conhecida como Tríplice Entente. Assim nasceram os blocos que se enfrentariam na Primeira Guerra Mundial.

A formação de um império colonial por parte de um país era visto como instrumento de força e prestígio que podia romper o equilíbrio entre as potências. Já as potências chegadas tardiamente à corrida colonial utilizaram a ideia de sua superioridade nacional como instrumento político e ideológico contra seus rivais. […]

A alteração sofrida pelo conceito de Estado conciliador, baseado no ideário liberal, acompanhou o fim do capitalismo da livre concorrência. No capitalismo monopolista, a ideologia que prevalecia era a que assegurava à própria nação o domínio internacional. A expansão do capital era justificada ideologicamente pelo desvio conceitual da ideia de nação, onde uma poderia sobrepujar outras por considerar-se ‘eleita’ entre as demais. […]

A perspectiva de uma guerra europeia (e, pela extensão dos interesses coloniais das potências, mundial) era já visível no final do século XIX. Em 1914, quando a guerra de fato explodiu, não era sobre terreno virgem que Lênin se apoiava para afirmar: ‘A guerra europeia, preparada durante dezenas de anos pelos governos e partidos burgueses de todos os países, começou.

O crescimento dos armamentos; a exacerbação da luta pelos mercados no atual estágio imperialista de desenvolvimento dos países capitalistas avançados; os interesses dinásticos das monarquias mais atrasadas — as da Europa Oriental — tinham de, inevitavelmente, conduzir à guerra, e conduziram’. A Primeira Guerra Mundial só poderia ser entendida, portanto, como revolta das forças produtivas sociais contra o quadro, tomado historicamente estreito, das relações capitalistas e dos Estados nacionais.”

COGGIOLA, Osvaldo. Impérios em rota de colisão. In: História viva (Edição especial), São Paulo: Duetto, v. 24, p. 15-20, 2009.

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